Azul

o reencontro com uma alma que existe dentro de um corpo etéro desprovido de lógica

28 janeiro 2003

Pediram-me para contar uma história, mas eu não sou poeta., muito menos escritor e tudo aquilo que contar será mera fantasia da minha imaginação. Contexto não falta, à excepção daquilo em que julgo estar correcta. Contudo, nenhuma das minhas ideias correspondem, de facto, a uma realidade – será qualquer coisa em que gostaria de acreditar ou de vivenciar, mesmo que em sonhos.

Se, por um mero acaso, conseguir transformar a realidade que se manifesta tão negra em muitos aspectos, serei capaz de me tornar um pouco mais feliz, ainda que efémera ou fugazmente.

O meu sonho futurista não se limita à concretização de ambições ou ideais presentes, mas provavelmente de um ideal surrealista, decorrente daquilo que ambiciono numa perspectiva mais longínqua e necessariamente provida de sentido, um sentido confortante, que permite a caminhada ao longo de um trilho sinuoso, num mundo repleto de injustiças e sacrifícios.

Será certamente importante manifestar a, redundante, mas impreterível, importância da saúde e da nobreza de sentimentos, da boa profissão e da melhor capacidade de entendimento, de nós mesmos e dos outros.

Hoje, sinto apenas a indiferença de uma chuva que cai e molha tudo aquilo em que toca, uma indiferença que se manifesta numa transformação temporal e meteorológica numa pacatez de alma e de confiança nos outros que circulam em torno da tal felicidade, para mim e para tantos, finita e inconstante.

As velas acesas e o cheiro inebriante da canela, a música dorida e sôfrega manifestam-se em mim e manifestam-me em toda a calmia que se avisinha. Tudo se, no entanto, de uma questão de surpresa: prefiro o negativismo ao positivismo, prefiro ser surpreendida a surpreender-me. Daí que veja tudo pelo limite negativo, sem dar possibilidades ao sorriso da vida de se expressar!



Eu gostava de olhar para ti, a Estrla-do-Mar, são apenas melodias poetizadas de qualquer coisa que me identifica contigo, com uma personalidade que, apesar de não ser a minha, tem muito para enquadrar, mesmo que num pretextos despropositado.

A lareira acesa... um livro feliz... uma filosofia que transparece não o empirismo, nem o absolutismo ou o relativismo da vida e da felicidade ocultam todo um existencialismo proposto pelas mentes mais sábias, mentes que elevam o seu conhecimento ao máximo expoente e consideram a vida como qualquer coisa de forçoso e necessário para o entendimento de si próprios. Já dizia Exupéry acerca do cativar serei teu amigo se me cativares e tu serás meu amigo se te deixares cativar, se se aprender a gostar, a demonstrar que se gosta e a viver, não em função desse gostar, nem desse alguém, mas, para além de nós, da vida e de uma relação que deve ser fortificada dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano...

Amizade é peça fundamental do puzzle da existência humana, tal como a consciência da existência da morte – o culminar de um caminhar, de um trilho; é apenas uma nuvem que termina o seu ciclo e chove, dando possibilidade ao sol de se expressar, de manifestar o seu quê de felicidade...

Já o amor, o amor... o amor ou a paixão... têm muito que se lhe diga!!!... Um sentimento peculiar, desconhecido e incerto, característico e estranho...

Uma lágrima que teima em não cair e desespera pela melhor oportunidade para se fazer sentir... eu não sei o que me aconteceu/foi feitiço/o que é que me deu? – nem eu própria sei ou admito a realidade, que, num perfeito paradoxo, pouco ou nada tem de real. Trata-se de uma certeza incerta, de um sonho tornado pesadelo.

A eterna satisfação nas relações que se criam começam, agora, a surgir em fragmentos de papel, de fumo, de melodias e de trocas de palavras... parecem surgir no descontexto e num fanatismo desmedido, perdido! Nada parece querer mudar, nem mesmo o sorriso do sol que me ilumina e aquece, nestas manhãs, não invernais, mas frias e repletas de um secreto misticismo que eleva o negativismo do espírito à mais infeliz das criaturas, que na verdade apenas se demonstra descontente com a vida e com as suas relações amistosas, com a sua pacatez de vida!

O pó nascido nos móveis carregados de nostalgia e memórias, de velas e de livros, de fotografias e nomes redigidos ao acaso, continuam estáticos e a desesperar pela suavidade de um toque, macio de mãos, bonitas e cravadas de apologias e de filosofias desmedidas, numa sinfonia pacífica e com cheiro a maresia... os armários anseiam pela criança que outrora existiu e se escondia de cada vez que tudo conspirava contra ela, pela lanterna que a iluminava e a trazia de volta à vida, como que numa ressurreição perfeita de desejo próprio e impróprio, fantasiado e incomensurável.

De repente, cheira a chuva... cheira a vento e a trovoada, a desespero e a terra molhada... tudo passa, tudo passará, mesmo que lentamente!